Entre Delírios e Rotinas: doutor da Unifesp fala sobre Desafios da Inclusão no Dia Nacional de Conscientização sobre a Esquizofrenia

Publicado em: 21/05/2026


Arthur pega sua mochila já bem organizada, veste o uniforme da empresa e vai em direção ao ponto de ônibus e assim começa mais um dia na sua rotina como vendedor em uma grande loja do varejo de São Paulo. O que pouca gente sabe é que Arthur é pessoa com esquizofrenia, que, com o uso correto da medicação e apoio da família e de uma equipe multiprofissional, ele se encontra estável há muito tempo. Mais de meio milhão de brasileiros tem a doença.

Por Sergio Gomes para o site da Câmara Paulista para Inclusão da Pessoa com Deficiência no Mercado de Trabalho

Dia 24 de maio, celebra-se o Dia Nacional de Conscientização sobre a Esquizofrenia.

         A data tem por objetivo chamar a atenção para essa doença que é uma das mais temidas quando se fala em transtornos mentais, e assim ajudar a reduzir o preconceito causado pelo estigma. A esquizofrenia apresenta-se como um quadro de psicose persistente e dos chamados “sintomas negativos”, segundo Doutor Ary Gadelha, Diretor do Programa de Esquizofrenia da Unifesp. Ele explica como é o quadro sintomático das pessoas com esquizofrenia:

         “A esquizofrenia é uma psicose, então é um transtorno mental marcado pela presença de sintomas psicóticos, o que significa que a pessoa tem delírio e alucinação. Delírio é acreditar em algo que só ela acredita e que ocupa a vida dela. O tipo de delírio mais comum é o delírio persecutório. A pessoa acha que é vítima de um complô. O outro tipo de delírio mais comum é o autorreferente. A pessoa sente que as outras falam dela, apontam pra ela. Pode se apresentar também em formar de alucinações, como ouvir vozes, ouvir que alguém está falando com ela, sem ter ninguém por perto. Obviamente que para a pessoa que tem esquizofrenia, aquela voz é uma voz real. Além dos sintomas psicóticos, outros sintomas da esquizofrenia são alterações cognitivas e os “sintomas negativos”, aquilo que falta na expressão do afeto, na vontade. Esses “sintomas negativos” são menos conhecidos na população, são as alterações mais específicas. Os mais típicos da doença são aqueles que estão associados às dificuldades que as pessoas com esquizofrenia têm no seu dia-a-dia”.

Doutor Ary Gadelha é um homem branco de cabelo castanho escuro. Usa paletó preto, camisa branca e está de pé falando ao microfone.

Desigualdade Social

         Um estudo recente, de 2025, produzido por pesquisadores da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), USP (Universidade de São Paulo) e UFPR (Universidade Federal do Paraná) mostra que no Brasil há 547 mil pessoas com esquizofrenia, número que equivale a 0,34% da população. Segundo esse mesmo estudo a maioria das pessoas afetadas por esse transtorno são homens de 40 a 59 anos, de baixa renda e escolaridade, são moradores urbanos e moram sozinhos em sua maioria.

         É nessas dificuldades diárias que o diagnóstico deixa de ser apenas médico e vira um problema social. Quando o desânimo e a falta de vontade, sintomas pouco compreendidos se somam à solidão e à falta de apoio do governo, a situação fica grave. O sofrimento mental não vem sozinho. Ele quase sempre empurra a pessoa para a pobreza e para longe das oportunidades. Alguns números sobre a esquizofrenia e o mercado de trabalho ajudam a entender melhor como essa doença prejudica o dia a dia da pessoa com esquizofrenia e a empurra para o isolamento e a pobreza:              

         Das pessoas com esquizofrenia, apenas 17,8% estão empregadas. Em 2025 também foram concedidos mais 18.700 auxílios por incapacidade temporária para o trabalho, motivados pela esquizofrenia. Neste mesmo ano, houve um aumento de 26,4% nos casos de afastamento do trabalho causados pela esquizofrenia em relação ao ano anterior.

Um dos motivos é que pacientes em tratamento e quadro estável também podem ter o quadro de saúde mental desestabilizado por fatores estressores do ambiente laboral, como a cobrança excessiva pelo cumprimento de metas, imediatismo, que exige respostas muito rápidas para mensagens de texto, e-mails, excesso de reuniões entre outros. Mesmo estáveis, o cérebro das pessoas com esquizofrenia trabalha com um esforço maior para organizar o pensamento e filtrar o que é importante.

Funcionalidade

O Arthur, o vendedor com nome fictício que abre este texto, representa uma realidade perfeitamente possível: a de que o diagnóstico não anula a capacidade de autonomia e inserção social. Embora a baixa taxa de ocupação reflita as severas barreiras do mercado de trabalho e o preconceito estrutural, a estabilidade prolongada mostra que, com o uso correto da medicação, apoio familiar e suporte multiprofissional, o indivíduo pode sim gerenciar sua própria rotina, trabalhar e ocupar seu espaço na sociedade.

         “A esquizofrenia é um transtorno muito heterogêneo e há pessoas com muitas dificuldades e que mesmo com o melhor tratamento não vão conseguir trabalhar.”, explica dr. Ary Gadelha. E ele continua “Hoje, os tratamentos avançaram com antipsicóticos modernos que controlam delírios e alucinações com bem menos efeitos colaterais, garantindo mais qualidade de vida. O segredo do prognóstico favorável está no diagnóstico precoce e no início imediato do tratamento combinado, unindo a medicação à reabilitação psicossocial logo após o primeiro episódio, o que aumenta drasticamente as chances de o paciente ter uma vida com autonomia.”

         José Alberto Orsi, diretor-presidente da ABRE (Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Pessoas com Esquizofrenia) é pessoa com transtorno esquizoafetivo e ele contou um pouco de sua experiencia de mais de 20 anos convivendo com o transtorno “A recuperação completa é improvável. O recovery, a superação, e o controle do transtorno são uma luta diária. A gente não mata um leão por dia, a gente amansa o leão. Cada amanhecer exige se reestruturar e se reinventar. Hoje tenho relativa autonomia financeira, mas ainda moro com minha mãe. Para mim, superar é viver tão bem quanto possível, o que significou mudar de área [engenharia] e estudar o meu próprio transtorno. Agora, estou focando na educação, criando uma escola de superação e cidadania chamada Imagos.

O trabalho como terapia

         Assim como na maior parte das deficiências e dos transtornos psiquiátricos, as pessoas com esquizofrenia podem se beneficiar de forma terapêutica das atividades laborais.

         Doutor Gadelha explica que a esquizofrenia é uma doença que prejudica a coordenação das funções psíquicas com sintomas. Ele ressalta que nem todo paciente apresenta todos os sintomas ao mesmo tempo. No contexto profissional, a pessoa pode trabalhar desde que os sintomas alucinatórios estejam controlados para não afetar o contato com a realidade. O segredo para a inclusão no mercado é oferecer um ambiente previsível com tarefas bem definidas e rotinas estáveis pois a falta de flexibilidade é o maior desafio para esses indivíduos. No fim a adaptação no trabalho deve focar na funcionalidade de cada um, de forma semelhante ao que ocorre com pessoas com outras deficiências, priorizando o que a pessoa consegue realizar no momento.

         “A crise psicótica e o isolamento em casa fazem a pessoa perder o contato com os outros. Quando ela entra no mercado de trabalho, ganha novos vínculos e uma identidade mais saudável, definida pelo que ela faz e não pela doença. Estar no emprego funciona como um treino para a mente e para as habilidades sociais, além de combater o sedentarismo. Por isso, sempre que possível, a inserção no trabalho é muito positiva.”

O Preconceito

         Alguns dos mitos sobre a esquizofrenia foram desmantelados ao longo desse texto, mas um outro problema importante é a psicofobia, que é o preconceito contra pessoa com transtornos mentais ou deficiências psicossociais. Há o estigma, que se manifesta, por frases como “Isso é frescura”, “Isso é falta de Deus”, direcionadas a pessoas com depressão, por exemplo.

         O medo de ser rotulado e sofrer ainda mais preconceitos pode levar a pessoa a demorar para procurar ajuda e isso pode impactar diretamente tanto no quadro clínico da doença como na sua qualidade de vida e nas relações sociais.

         José Alberto Orsi comenta sobre o preconceito voltado, em especial, contra as pessoas com esquizofrenia. Orsi afirma que a psicofobia e o preconceito contra transtornos mentais são questões centrais que atingem todas as pessoas de alguma forma. Ele observa que embora temas como depressão e burnout sejam mais aceitos hoje do que no passado muitas pessoas ainda escondem sua condição por medo do estigma social. Ele relata que sente na própria pele a reserva dos outros quanto à sua capacidade de resolver problemas, mas admite que no caso da esquizofrenia é realmente necessário um ambiente mais acolhedor e abrigado para que as atividades educativas e de trabalho possam ser desenvolvidas com sucesso.

Um caminho para seguir

O Dia da Conscientização sobre a Esquizofrenia não é apenas uma data para que as pessoas se informem sobre os sintomas desse transtorno e fiquem apenas a sentir pena. É um momento para as pessoas entenderem que devem “amansar o leão do preconceito” e enxergar, como em qualquer deficiência, que há uma pessoa por trás daquele diagnóstico e que, sim, sempre terão alguma limitação em algum momento, mas que são pessoas que querem produzir e são capazes com os apoios e as adaptações necessárias. Sempre é necessário ver além de deficiência e no caso da esquizofrenia não é diferente.

*Sergio Gomes é jornalista e escreve para o site da Câmara Paulista de Inclusão dede 2022 e convive com a esquizofrenia há 23 anos.

A seguir está um resumo do artigo A prevalência da Esquizofrenia no Brasil: Vulnerabilidade Social como Consideração Fundamental para Cuidados e Políticas, artigo liderado pelo pesquisador Doutor Ary Gadelha e é o artigo mais completo nesse segmento produzido no Brasil e foi a fonte de muitos dados apresentados nessa reportagem:

arte com figuras e texto:
1. Maior proporção de homens do que mulheres - quase 40% a mais homens

    2. Idade de início entre 18 e 30 anos - pico da prevalência na faixa de 40 a 59 anos. Redução após os 60 anos. Essa redução pode ser explicada por uma menor expectativa de vida. Em estudos internacionais, a expectativa de vida é menor em 15 anos. Uma parte por maior risco de suicídio, mas o maior risco é por condições cardiovasculares e doenças respiratórias. 

    3. Há uma maior prevalência em ambientes urbanos. O que também foi descrito em estudos fora do país. Existe uma compreensão que no ambiente urbano há maior risco de infecções respiratórias perinatais, violência, uso de substâncias, que são fatores de risco indicados na literatura científica.

    4. A maior parte não mora com um parceiro, indicando maior dificuldade em formar relacionamentos estáveis.

    5. A renda é muito baixa, a prevalência em pessoas que tem menos de um salário mínimo é mais de 3x menor. Esses dados tem de ser analisados por diferentes possibilidades. A mais imediata é que a própria condição leva a dificuldades na vida ocupacional. Um outro, é que pessoas mais expostas a adversidade tem maior risco de desenvolver a doença. Possivelmente os dois caminhos acontecem, mas independente de causa ou consequência é uma população vulnerável.

    6. O nível educacional chama atenção. A prevalência da doença é bem maior quanto menor o nível educacional. Também chega a 4 vezes maior em quem relata não ter educação formal comparado a quem tem maior escolaridade. Isso pode ser causada pela própria doença, se o início foi antes dos 18 anos; mas também pode traduzir essa situação de maior vulnerabilidade.

    7. Preocupação - dados indicam uma grande situação de vulnerabilidade social, que exige a articulação de políticas de assistência social e da saúde. Muitos nem conseguem acessar o sistema de saúde o que agrava a sua condição e aumenta o impacto para as famílias.

Os dados podem estar subestimados, pois, ao ser domiciliar, a pesquisa não inclui situações que ocorrem com frequência na esquizofrenia: pessoas em situação de rua, pessoas internadas e casos de recurso ou incapacidade de responder.

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