Pessoas com Deficiência e o dilema das redes

desenho de um menino encolhido na cadeira e com expressão muito triste, lendo pelo computador que está à sua frente, dentro da rede social, a palavra escrita em letras enormes "cabeçudo".
imagem do site www.chegadebullying.com.br

Publicado em: 17/02/2022


Por Sergio Gomes

Já se sabe há bastante tempo que redes sociais podem ser locais de grande toxidade. Discursos e crimes de ódio, racismo, machismo, sexismo, homofobia, transfobia, gordofobia, entre outros preconceitos e discriminações estão presentes todos os dias, e cada vez mais frequentes. No entanto, pouco ainda se conhece sobre o capacitismo, preconceito e discriminação contra pessoas com deficiência. Ele pode aparecer de forma direta por meio de xingamentos, agressões, ofensas, ou ‘velada’, através do deboche, ridicularização, infantilização, e humilhações por palavras, memes ou figurinhas na internet.

Você sabe que pessoas com deficiência respondem por quase um quarto da população brasileira segundo o senso do IBGE de 2010? E que desde antes de 1988 existem leis brasileiras que deveriam ser cumpridas para garantir os direitos humanos de todas as pessoas dentro da sociedade? Provavelmente, a grande parte da população ainda não sabe que o capacitismo é crime!

No último domingo dia 6 de fevereiro, o programa dominical da TV Globo, Fantástico, levou ao ar uma reportagem especial sobre pessoas com deficiência e o uso das redes sociais, mostrando alguns crimes cometidos contra esta população. Pessoas de diferentes classes sociais contaram sobre ataques covardes e odiosos feitos em seus perfis.

Eu, como pessoa com deficiência psicossocial e negro, fiquei bem chocado com a reportagem, embora esses ataques não sejam uma novidade para mim, pois no passado, ao revelar meu transtorno mental fui vítima de xingamentos e agressões bem perversas na internet.

Conversei com algumas pessoas com deficiência e vi que a reportagem teve grande repercussão.

“Eu trago algo importante, a maior parte da população de pessoas com deficiência é negra e vive em situação de vulnerabilidade. Uma das coisas que achei bem importante na reportagem foi chamarem a atenção para o desconhecimento da LBI (Lei Brasileira de Inclusão) por parte dos escrivães de polícia. Eu fui vítima de ataques dentro das plataformas de mídias sociais, mas também fora delas, sofri um ataque racista e capacitista e ao tentar registrar um boletim de ocorrência o escrivão não queria fazer, pois disse que capacitismo não era crime e depois da minha insistência ele fez o BO, mas no final ele registou como injúria”.

Flávia Diniz, mulher negra, pessoa com deficiência, 42, da periferia da cidade do Rio de Janeiro falou sobre a reportagem.(@Instagram: @flaviadinizzz /Facebook: Flavia Diniz /Twitter: @afropcd)

“É fundamental falarmos e expormos como somos tratados dentro e fora das redes sociais. Precisamos combater toda forma de capacitismo.”

Disse Rafael Barbosa, ator e dançarino negro com deficiência, da classe média de São Paulo falou sobre a matéria do Fantástico.(@Instagram: rafaelbarbosaoficial_/Facebook:www.facebook.com/rafinhabbarbosa)

Também quis saber como lidam com as redes sociais e os ataques nessas plataformas.

“Depois dos ataques levei mais de um ano para voltar às redes sociais, foi necessário muita terapia e gratuita, e foi difícil encontrar, pois ninguém se preocupa com a saúde mental das pessoas com deficiência, ainda mais quando são negras”.

Relata Flávia Diniz

“Eu converso com poucas pessoas nas redes sociais. Eu espero as pessoas chegarem até mim. Tenho dificuldades em me relacionar nas redes sociais”.

Comentou Rafael Barbosa

Ao final da minha conversa com eles pedi para que mandassem uma mensagem para as pessoas que passam por ataques nas redes sociais e eles responderam assim:


“Tenham coragem, eu sei como é difícil, até por já ter passado por essa situação, mas procurem as delegacias de crimes cibernéticos, eles descobrem o IP e vão atrás das pessoas é importante também denunciar no próprio aplicativo, não podemos no calar diante da violência”

Foi esta a mensagem de Flávia Diniz

“Não se escondam, não tenham vergonha ou medo de se expor, de se relacionar. Não deixem que ninguém tente te padronizar. Vivam ao máximo com as suas diferenças. Somos pessoas antes de qualquer coisa e isso precisa ser respeitado”.

Disse Rafael Barbosa

Algumas pessoas dizem que o melhor para lidar com essas situações é “criar uma couraça”, mas nem todos conseguem resistir até desenvolverem essa couraça, como é o caso da moça no Ceará, por exemplo, mostrada na reportagem do Fantástico e que pensou em tirar a própria vida.

Eu digo para procurarem ajuda, conversar com os pais ou algum parente próximo ou mesmo amigos ou namorado(a) que talvez seja o primeiro passo para conseguir punição adequada a essas pessoas tóxicas. Afinal, estas plataformas podem funcionar como ferramentas de inclusão digital e social, mas também podem ser fonte de decepção e tristeza.

Link para a reportagem do Fantástico na íntegra

No artigo 4° da Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015) está descrito que capacitismo é crime. Você pode ler a integra da lei gratuitamente no site do congresso.

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