Desafiando preconceitos, modelo se torna ‘top’ pela inclusão

Três modelos vestidas de noivas, todas com nanismo, estão em frente a uma praia. Elas têm o cabelo preso em um coque, de onde sai uma grinalda. Estão de costas para a foto e de frente para o mar.
Cristiane Oliveira está à esquerda, em foto de ensaio fotográfico (arquivo pessoal)

Publicado em: 16/08/2017


Cristiane Oliveira, 33, faz o tipo “mulherão”. Seus 47 kg distribuídos em 1,30m e as curvas proeminentes são motivos de orgulho e fazem sucesso em desfiles de moda.

Nascida no interior da Bahia e radicada em São Paulo desde os nove anos, ela é um ser humano raro. A cada 20.000 pessoas, apenas uma nasce com nanismo – e menos ainda devem ser como ela, que além disso também é modelo, gestora de recursos humanos, ativista e consultora de moda.

A deficiência congênita que aos poucos comprime as vértebras C3 e C2 não a impede de viajar muitos quilômetros de ônibus para subir numa passarela, “o momento em que posso ser eu mesma”.

Desde 2014, quando a convite de uma amiga, também pequena, viajou a Florianópolis (SC) para um concurso de moda, Cristiane virou top em seu meio. Alta para os padrões do nanismo, tem dois eventos até novembro.

BELEZA

Embora não ganhe R$ 1 com a profissão, Cris Oliveira, nome artístico, roda o país desafiando o preconceito que associa pequenos ao humor escrachado e à bizarrice dos números circenses.

“Somos invisíveis para o governo, que não faz contagem dos pequenos, para as famílias, que preferem nos esconder, e para a moda, que não se preocupa em fazer nos sentirmos bonitos”, diz.

O problema da falta de padrão de medidas no país, que faz um tamanho “M” ser diferente de uma marca para outra, é ampliado em progressão geométrica para quem tem nanismo.

“Nossas proporções são diferentes, os braços são mais curtos, as pernas e os glúteos mais cheios. Na grade de hoje nada fica bem. A moda ou nos veste como duendes –como uma estilista já pediu para eu desfilar– ou como sacos de batata. Nos ridicularizam, porque simplesmente não existimos para a maioria das pessoas”, diz. “Não nasci para usar burca.”

Também não bastaria cortar as barras das calças. A modelagem de um par de jeans envolve, por exemplo, deixar a largura das coxas maior do que os joelhos ou a barra e garantir que padrões do tecido estejam no lugar certo. Camisas de manga longa e vestidos com decote têm o mesmo problema de proporção, e, por isso, muitas vezes, estão fora da maioria dos armários.

Um dos poucos projetos criados para minimizar o problema é o curso de moda inclusiva promovido pelo Centro de Tecnologia e Inclusão da Secretaria de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência de São Paulo. É gratuito e a cada semestre a programação instrui mais de uma dezena de alunos.

A falta de peças condizentes com o corpo pequeno promove um efeito “destruidor da autoestima”. “Tem gente que nem sai de casa para socializar porque não tem roupa. A depressão é consequência, e isso mata mais do que se imagina. Conheci uma adolescente que de tão triste pegou pneumonia, morrendo logo depois.”

 

Veja a matéria completa: http://m.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/07/1903587-desafiando-preconceitos-modelo-com-130-m-se-torna-top-pela-inclusao.shtml

 

Por Stela Masson: 01/08/2017

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