Desafios e ganhos com a empregabilidade de pessoas com síndrome de Down

Arthur está ao lado de dois colegas de trabalho, um rapaz e uma moça. Todos estão de camiseta e crachá da loja de esportes Centauro, onde trabalham, fazendo sinal positivo. Arthur é o único da foto com síndrome de Down.
Arthur, ao centro, com colegas da loja de materiais esportivos onde trabalha há 10 anos. Esse é seu terceiro emprego formal.

Publicado em: 04/06/2017


No Brasil ainda não há estudos relevantes sobre a empregabilidade das pessoas com a Síndrome de Down, por isso poucas estatística e dados de evolução encontram-se disponíveis. Ainda assim, são notórios os casos de pessoas com Down que conquistam sua autonomia por meio do trabalho e da renda própria.

Para elaboração desta matéria a reportagem conversou com famílias, empregadores e especialistas que dedicam-se a promover a inclusão, considerando suas características e as necessidades de preparação e conhecimento para garantir a boa convivência, o desenvolvimento e a contribuição que estes profissionais podem dar ao ambiente de trabalho.

Os consultores, empregadores e famílias afirmam que a qualidade de vida das pessoas com síndrome de Down é potencializada pelo trabalho, pelas novas relações sociais, aprendizados técnicos e desenvolvimento da autonomia. Além dos próprios colaboradores, seus familiares também enxergam esses ganhos obtidos pelo ambiente de trabalho – menos protegido que o de casa e o da escola, promovendo um aprendizado que não se adquire em outros círculos sociais.

A proteção excessiva da maioria das famílias, porém, motivada por vários fatores que vamos abordar a seguir, constitui um obstáculo importante na inclusão de pessoas com Down em empresas que querem contratá-los. “Por diversos motivos a família tende a dificultar a inclusão social, sobretudo no mercado de trabalho formal, e não apenas em razão da perda do Benefício Prestação Continuada (LOAS)”, conta Maria Rosimar da Silva, mãe de Arthur, de 32 anos com síndrome de Down, além de consultora e formadora na Arestrelas Inclusão Social e Emprego Apoiado (EA), que atua na Baixada Santista e municípios do grande ABC. Para exemplificar, Rosimar, que também é pedagoga, cita “o medo do ‘preconceito e da violência social’, a descrença na capacidade laboral do filho/filha mesmo alfabetizado, a acomodação e a superproteção familiar e da própria pessoa com deficiência”.

Adriano Bandini, RH do Citi Brazil, concorda com a especialista em Emprego Apoiado (EA). “No momento, dos 46 colaboradores com deficiência intelectual que atuam no Citi, nenhum tem Síndrome de Down. Em 10 anos de projeto de inclusão, sempre que tivemos vagas, pouquíssimos candidatos com Down participaram da seleção”, conta Bandini,  para quem “a proteção excessiva da família gera essa situação”.

Na rede de farmácias RD (Raia-Drogasil), o programa Lado a Lado desenvolve processos de inclusão há 12 anos e já admitiu mais de mil funcionários com deficiência para atuar nos Centros de Distribuição, nas lojas e na matriz da empresa. Um grande diferencial do Lado a Lado é a forte inclusão de pessoas com deficiência intelectual – mais de 500 -, sendo que apenas 60 têm Síndrome de Down.

“A família tende a protegê-los e acaba por levá-los à não responsabilização pelas decisões da vida que um adulto deve tomar sozinho”, analisa Fernando Braconnot, responsável pelo RH/ Desenvolvimento Organizacional da rede RD. “Isso pode dificultar a pessoa com Down a desenvolver autonomias mínimas como a locomoção (ir e voltar do trabalho sozinho), se alimentar, fazer a higiene pessoal, etc. O deficiente intelectual é tratado como um ser infantilizado e muitas vezes tido como incapaz de assumir responsabilidades da ‘vida adulta’ como trabalhar.” completa Braconnot.

Para a diretora da Co-labora diversa, empresa que desenvolve projetos para a Educação, Regiane F. Silva, o preconceito cultural que advém dessa falta de autonomia, gera uma nova barreira para a empregabilidade. “Apesar dos avanços em relação à contratação de pessoas com deficiência no mercado, ainda existe desconhecimento e despreparo de muitas empresas para identificar o potencial profissional dessas pessoas e as formas de incluí-las”.

Na educação formal, em geral, as pessoas com Síndrome são ótimos “copistas” (descrevem tudo o que veem), porém prevalecem as “dificuldades em serem alfabetizados plenamente através do método de ensino usual”, aponta Rosimar, da Arestrelas. “Há os que não conseguem mesmo, outros que conseguem se alfabetizar funcionalmente e um contingente significativamente menor, que avança um pouco mais nos estudos. A ‘linha inicial da potencialidade intelectual humana das pessoas com Down tende para baixo’ e, por essa razão, fala-se de rebaixamento intelectual do Down”, completa Rosimar.  Para avaliar a capacidade  individual, a classificação médica (CID) divide a  deficiência intelectual nas categorias leve,  moderada ou  severa.

Em relação ao aprendizado formal em escolas regulares, é perceptível, pelos especialistas, que as últimas duas décadas registraram grande aumento da participação de jovens e adultos em programas de educação inclusiva e qualificação profissional. “Pessoas entre 18 e 40 anos têm procurado os programas de qualificação que oferecemos, e participado mais ativamente”, contabiliza Juliana Righini, sócia da Co-labora diversa.

“Geralmente eles são muito comunicativos e solícitos, perfil essencial ao negócio, e que agrada os nossos clientes”, relata Braconnot conta, da rede RD. Uma das características positivas nas pessoas com Down é que, geralmente, dão o melhor de si quando estão fazendo algo que gostam, costumam ser perfeccionistas e  espiritualizadas. Na maioria dos casos, são amáveis, carismáticos, parceiros, autênticos e sinceros ao extremo. Mas por melhor desenvolvimento que uma pessoa com Down atinja, sempre precisará de apoios e suporte diários.

“Existem famílias que apoiam e  acreditam no processo de inclusão no mundo do trabalho, e outras que preferem não dialogar com seus filhos sobre essa possibilidade. Depende de como cada família de pessoa com deficiência se posiciona sobre essa questão”, analisa Regiane F. Silva,  da Co-labora Diversa. “Quando amado e tendo suas necessidades atendidas com qualidade, desde a tenra idade, é possível ao Down sair do nível  ‘moderado’ para o ‘leve’, acrescenta a consultora e pedagoga Rosimar.

Os ganhos para o ambiente de trabalho que inclui pessoas com Down são notórios. “Elas costumam apresentar características que promovem reações positivas nos colegas, e podem contribuir para a melhoria da saúde organizacional”, apurou a pesquisa da consultoria McKinsey&Company em parceria com o Instituto Alana realizada em 2014, em diversos países.

Mais de 2000 colaboradores participaram do estudo. Por meio de análises qualitativas e quantitativas, comprovou-se que a presença de pessoas com síndrome de Down pode impactar cinco das nove dimensões do “Índice de Saúde Organizacional”, sendo elas liderança, orientação externa, motivação, cultura e clima, coordenação e controle.

Sucesso profissional

De uniforme cinza da marca esportiva Fila e com o logotipo da Centauro, Arthur recebe uma caixa de bombons da gerente da loja. Ela também usa o mesmo uniforme que ele. Cada um segura os bombons com uma mão. Arthur tem um óculos de sol na testa e usa bigodes e cavanhaque. Ela é loira e usa óculos. Eles sorriem. e ao fundo se vê o interior da loja.

Arthur se destaca pelo atendimento prestado aos clientes da loja de esportes onde trabalha

“Arthur saiu da instituição especializada (APAESP) para a inclusão escolar, aos 14 anos e ao término do fundamental II. Começou  a trabalhar com 19 anos. Está na CBF Produtos Esportivos (CENTAURO), há quase 10 anos, sendo essa a sua terceira empresa empregadora. Algumas vezes, desejei convencer Arthur a alçar novos voos e partir para outras empresas em buscas de novos desafios, mas respeitando o seu direto de escolher – e ele quer permanecer na empresa, fato que nos convence de que ele se sente produtivo, incluído e feliz.
Nunca aceitamos a sua exclusão social e, quando manifestou querer estudar na escola dos irmãos mais novos do que ele, fomos pra batalha exaustiva até conseguir. Além de mãe de Arthur, com 32 anos e com Síndrome de Down, sou ativista desde o momento que recebi a notícia da alteração genética do meu filho: atuo na área da inclusão social pelo Emprego Apoiado, com a família e a pessoa com deficiência, independente da idade, e não limitando o atendimento em razão do grau de dificuldade ou limitação que a pessoa apresenta. 

Criado nos Estados Unidos há mais de 4 décadas, o Emprego Apoiado (EA) é uma ferramenta cuja capacidade em empregar pessoas com deficiência,  garante qualidade e satisfação por parte de todos os envolvidos. O EA  é aceito no Brasil  desde 2011,  sendo atualmente denominado de Tecnologia Social: Emprego Apoiado(EA)”.

 

Dicas de convivência com empregados com Down

A maioria das empresas tem muita dificuldade para proporcionar um ambiente inclusivo, com acessibilidade e comunicação adequada com a pessoa Down. Para ajudar, separamos algumas dicas para ajudar os empregadores e também as características desses colaboradores em outros círculos sociais,  repassados pela consultora em Emprego Apoiado e pedagoga Maria Rosimar da Silva e pelas consultoras da Co-labora Diversa Juliana Righini e Regiane Silva.Confira:

No trabalho:

  • Para incluir com sucesso uma pessoa com síndrome de down, é preciso descobrir antes do que
    gosta e que habilidades possui. Saber e respeitar suas dificuldade e limitações e, a partir daí,
    orientá-lo por etapas curtas até que faça por si só.
  • A comunicação deve ser o menos complexa possível: o que é sim é sim, e o que é não é não. É importante que se explique as regras e o porquê usando da sinceridade e das regras a que todos na empresa estão sujeitos.
  • O empregador precisa estar disponível para desenvolver programas que orientem seus colaboradores nas ações de contratação de pessoas com deficiência intelectual.
  •  O ideal é que atue em pares, com um colaborador sem deficiência servindo de modelo e apoiando sempre que necessário.
  • Uma boa análise de posto, conversa com a equipe e disponibilidade para garantir a acessibilidade são imprescindíveis.
  • Quando fazem o que  gostam, costumam ser perfeccionistas e  espiritualizados.
  • Geralmente eles são muito comunicativos e solícitos, perfil  que agrada aos clientes. Mas em relação à amabilidade,  é preciso não tratá-los com excesso de zelo, subestimá-los e infantilizá-los.
  • É importante perceber sua capacidade de persuasão para conseguir privilégios desnecessários
    com os colegas de trabalho.
  • As dificuldades em temporalidade, numerais, leitura e escrita e quanto ao discernimento
    crítico, são fatos reais nas pessoas com Down. Mas, como copista que são, quando atentos à importância do “modelo correto” por parte de todos da empresa,  aprendem o correto. O inverso também ocorre, por isso, até que dominem as regras, é preciso apoiá-los em relação às questões relacionadas com posturas profissionais, respeito aos colegas e chefias, horários de entrada, saídas, retornos de intervalos e término do trabalho.
  • É preciso  “exigir” do colaborador com Down o mesmo que se exige dos demais para estimulá-los e desafiá-los a darem o seu máximo.
  • É fundamental estimulá-los e parabenizá-los pelos êxitos alcançados –  por menores que sejam.
  • É de suma importância conhecer a família do colaborador e, na interação, saber como lidam com o membro
    familiar, quais habilidades e dificuldades que ele possui, que cuidados devem ter em se
    tratando da saúde. Com essa abordagem estarão conquistando a família, que tem seus problemas e medos,
    e nela terão uma aliada, uma vez que a família sente o quanto ganha com a cooperação coletiva de todos.

Na família:

  • Quando amado e tendo suas necessidades atendidas com qualidade, desde a tenra idade, é possível ao Down sair do nível  ‘moderado’ para o ‘leve’.
  • A qualidade de vida das pessoas com síndrome de Down é potencializada pelo trabalho, pelas novas relações sociais, aprendizados técnicos e desenvolvimento da autonomia.
  • Sem a conscientização da importância do trabalho para o filho na família, não haverá êxito no ingresso e a falta da cooperação familiar comprometerá ainda mais a permanência do profissional.

Na sexualidade:

  • Existem mitos  de que pessoas com Down sejam assexuadas ou super sexualizadas, o que só prejudica a questão da inclusão – e não procedem. O diferencial está em como a família educa seu filho em relação à sexualidade.
  • Como costumam ser amáveis, muitos são pegajosos e havendo receptividade além do normal, podem
    interpretar e serem interpretados de formas diferentes.

Preconceito:

Extremamente cruel e danoso à dignidade humana,  mesmo diante das tecnologias e
legislações excelentes,  a deficiência maior da inclusão ainda está nas barreiras criadas e
impostas pelo preconceito da própria sociedade. A contradição é que nenhuma pessoa está imune a se tornar uma pessoa com deficiência.

Instituições filantrópicas:

Por fim, um entrave que não se pode desconsiderar – nem tampouco generalizar, são as instituições filantrópicas. Devido à legislação vigente, para muitas delas não convém instrumentalizar as famílias a favor da inclusão no mercado formal de trabalho, para que não percam as verbas que as mantém ativas.

Consenso:

É consenso dos especialistas que atuam com  Down, que a escola, a empresa ou qualquer
outro espaço social, faça a inclusão dignamente, pois  devido a sua característica humana bastante
acentuada, a pessoa com Down contribui para a humanização do ambiente,  transformando o  espaço num lugar mais acolhedor, unido, produtivo e feliz.

Por Stela Masson, última atualização 30/6/2017

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