Dia das Mães – Duas mães com deficiência protagonizam sua experiência de luta pela autonomia

Foto de Joyce Guerra. Ela está sentada em um sofá e segura um bebê no colo. À direita dela, de joelhos no sofá, está uma menina com cerca de três anos de idade. Joyce tem pele parda, cabelo preto, longo e ondulado, que está preso. Ela usa um vestido preto com detalhes brancos.
Joyce Guerra, com os filhos Cristóvão e Mariles.

Por Lucas Borba

 

Se uma pessoa com deficiência no Brasil ainda tem que lidar diariamente com barreiras de acessibilidade, discriminação e outros desafios, uma mulher com deficiência tende a ser duplamente atingida, sendo possível acrescentar facilmente à lista agravantes como assédio e mesmo violência física. O que dizer, então, de uma mãe com deficiência?

 

A busca pelo protagonismo social, pelo reconhecimento da cidadania, constitui o objetivo central do crescente ativismo da pessoa com deficiência, que, felizmente, vem acumulando conquistas, embora graduais. O mesmo, é claro, pode ser dito acerca da constante e, aos poucos, vitoriosa luta das mulheres por equidade. No caso de mães com deficiência, a necessidade de afirmação desse protagonismo frequentemente impacta de forma direta não apenas nas suas vidas, mas também na vida de suas filhas e filhos.

 

A história de Joyce Guerra, ou simplesmente Jobis, como é conhecida, tornou-se referência para pessoas com e sem deficiência, incluindo mães, em todo o Brasil. Mulher com deficiência visual e casada com um homem na mesma condição, Jobis tem 37 anos e é mãe de três filhos: Estêvão, de 9 anos; Mariles, de 7; e Cristóvão, de 5. A família mora em Guaxupé, Minas Gerais. Autora do livro “Muito além da sobrevivência”, lançado pela Artêra, um selo da Editora Appris, Jobis também utiliza a sua conta no Facebook como uma espécie de blog pessoal, na qual compartilha relatos de suas experiências e do convívio cotidiano com os filhos.

 

A escritora enfatiza frequentemente o que considera ser o tipo de ataque mais grave ao protagonismo de uma mãe, mulher e pessoa com deficiência, que é quando alguém atribui ao filho, mesmo a uma criança, um papel de cuidado ou responsabilidade em relação a ela. “Para algumas pessoas, é quase como se os papéis devessem ser invertidos, como se o filho devesse ser privado de ter uma infância, um espaço de crescimento e aprendizado equivalente ao de qualquer outra criança para zelar pela mãe, o que além de absurdo é um total desrespeito, mesmo que inconsciente, tanto a um quanto ao outro”, afirma Jobis.

 

Em entrevista ao Portal Mãe Onça, que teve um trecho repostado no site de notícias Catraca Livre, ela esclarece que seus filhos enxergam normalmente e que não enfrenta qualquer impedimento específico para exercer o papel de mãe em razão da deficiência. “A realidade é muito diferente do que as pessoas pensam. Claro que eu tenho algumas dificuldades que você talvez não tenha, mas não é o drama que as pessoas imaginam.”, declara. A cegueira não a impediu de amamentar, slingar, ser mãe em tempo integral e passear na rua ou no parquinho com os filhos, e utiliza alguns truques para realizar tarefas diárias. “Nós marcamos as seringas com fita adesiva para sentir quando o êmbolo atinge a marca necessária. Cortamos as unhas quando eles dormem, para não machucar. Descobri que os itens da dita ‘maternagem alternativa’ são ótimos para mães cegas: slings são mais seguros que carrinhos; baldes de banho são mais seguros e práticos que banheiras, e assim por diante.”, relata Jobis.

 

Conexão materna

 

Adaptação também é uma palavra-chave para a doula (profissional que orienta e assiste a mães no parto) e educadora perinatal Sabrina Lage, que é uma pessoa surda desde o nascimento. Em uma entrevista à Revista Crescer, em 2018, a carioca falou sobre a sua relação com a filha ouvinte, a pequena Catharina, que na época tinha dois anos e cinco meses.

 

Casada com um homem também surdo, os dois se comunicam com ela por meio da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). “Depois que a Catharina nasceu, nos três primeiros meses ela ficava no carrinho ao lado da minha cama e eu colocava uma das mãos em contato com o corpo dela, para sentir os movimentos e saber quando ela estava chorando. Até que pude me conectar melhor com ela por meio da amamentação, porque meus seios ameaçavam jorrar de leite exatamente quando ela chorava para mamar, era incrível essa conexão!”, relata Sabrina.

 

Segundo a carioca, a comunicação com a filha iniciou de fato quando ela completou um ano. “Catharina aprendeu simultaneamente a LIBRAS e a língua oral. A aquisição das duas línguas ocorre de forma natural e espontânea, então dizemos que ela é bilíngue. Hoje, felizmente, flui muito bem, já temos conversação em forma de diálogos. Como estimulamos as duas línguas, ela se desenvolve mais rapidamente em relação a uma criança que domina apenas uma. Percebemos que ela tem sensibilidade tanto na parte auditiva quanto na visual. Ela ouve o barulho lá fora e nos comunica o que ouviu, observa atentamente os detalhes e tem ótima memória visual”, conta a mãe.

 

A educadora faz parte do grupo Mães Surdas, que tem como objetivo levar informações e empoderamento a mulheres surdas. “Quando ainda estava grávida, utilizei vários sites e grupos de mães para me informar a respeito do parto, da gestação, do puerpério, da amamentação e dos cuidados com o bebê. Por isso, quando uma amiga criou o Mães Surdas, entrei como administradora. Hoje, nosso objetivo é empoderar essas mães e equipá-las com informações de qualidade acerca da maternidade.”, explica.

 

Sabrina e o marido também criaram a fanpage Pais Surdos no Facebook,, na qual compartilham relatos de experiências e do dia a dia com a filha.

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