Pessoas com deficiência apaixonadas pelo Carnaval conquistam mais acessibilidade a cada ano

Foto da publicitária Mila Guedes em um bloco de rua. Ela sorri, com os braços erguidos. A moça está sentada em uma cadeira motorizada e usa uma camiseta na qual está escrito "O futuro é acessível".
Imagem: Arquivo pessoal

Publicado em: 27/02/2020


Camarotes acessíveis, tradução em LIBRAS dos sambas-enredos e audiodescrição dos desfiles contribuem com a inclusão no Carnaval paulista

Por Lucas Borba

É difícil pensar no Carnaval, uma das festas mais populares do mundo, sem pensar também em diversidade, ainda que inconscientemente. Afinal, todo o colorido, as fantasias tão variadas e criativas e a folia que contagia avenida após avenida é um convite implícito para que todos festejem. No caso de uma pessoa com deficiência, porém, será que na prática é tão simples assim?

Imagine uma pessoa com deficiência física ou visual tendo de lidar com a multidão, com o calçamento ruim e com objetos atirados ao chão, por exemplo. E uma pessoa com deficiência auditiva que também queira ter acesso à toda poesia dos sambas-enredos, como fica? Vale lembrar que, segundo o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), até 24% dos brasileiros possui algum tipo de deficiência, e entre eles existem aqueles que, além de querer curtir o Carnaval como todo mundo, querem fazer isso com plena autonomia.

É o caso da publicitária Mila Guedes, ativista do Movimento Brasileiro das Pessoas com Deficiência. Devido a uma esclerose múltipla, ela usa cadeira de rodas e, por conta da degeneração de Stargardt, tem 20% da visão. Em entrevista ao UOL Ecoa, ela conta que sempre escolhe um dos camarotes exclusivos para o público com deficiência, disponíveis no Sambódromo do Anhembi. Para se ter acesso, é necessário comprar um ingresso pelo site da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo. “Esses camarotes têm acessibilidade total, inclusive para o banheiro”, relata a publicitária. Mila se diz uma apaixonada por Carnaval e é frequentadora assídua dos bloquinhos de rua, no bairro da Vila Mariana. “Evito andar nas calçadas e acompanho o bloco fazendo o trajeto pela rua, apesar de ter que desviar de buracos de vez em quando”, explica.

Para além das barreiras físicas, a ativista também observa os olhares preconceituosos das pessoas e atitudes que podem parecer inofensivas, mas também são uma forma velada de preconceito. Frases como “Você é uma inspiração”, “Você é uma guerreira” ou “Parabéns por estar aqui” fazem parte do seu cotidiano na folia e, segundo ela, apesar de não constituírem maldade, sinaliza que outras pessoas a encaram de modo diferente. Nas palavras da advogada e xará da publicitária, Mila Correa D’Oliveira, também uma pessoa com deficiência física e em entrevista ao UOL Ecoa: “Pessoas com deficiência devem ser vistas com naturalidade, sem estereótipos de superação, porque vamos a esses locais apenas para nos divertir, não queremos ser destacados dos demais, e ninguém te dá parabéns por ir a uma festa”.

Comunicação acessível

Uma das formas de acessibilidade é a comunicacional, que empodera pessoas com deficiência ao fornecer informações fundamentais para o pleno acesso desse público a certos tipos de conteúdo. São recursos como a interpretação na Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), para pessoas com deficiência auditiva, e a audiodescrição, que traduz imagens em palavras para pessoas com deficiência visual, ambos serviços disponibilizados no Carnaval pela Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência (SMPED), pela quinta vez consecutiva.

Este ano, a 5ª edição do projeto Samba com as Mãos gravou traduções em LIBRAS dos 14 sambas-enredos das agremiações do Grupo Especial de São Paulo. Antes dos desfiles, links para os vídeos foram disponibilizados no site e no canal da SMPED no Youtube e, durante as apresentações, o material acessível foi exibido em telões no Espaço da Cidade, no Anhembi. Além disso, boletins ao vivo em LIBRAS foram publicados no Instagram da Secretaria, direto do sambódromo.
A audiodescrição, por sua vez, foi feita ao vivo a partir de uma cabine e transmitida para as redes sociais da SMPED. O serviço forneceu uma descrição especializada dos figurinos, cenários e de quaisquer informações visuais pertinentes durante os desfiles.

Confira as traduções em LIBRAS dos sambas-enredos em: https://www.youtube.com/user/inclusaosp

Leia também o artigo da jornalista Leandra Migotto Certeza, que tem deficiência e conta sua história de amor pelo Carnaval: https://azmina.com.br/colunas/o-carnaval-so-e-inclusivo-quando-nao-e-capacitista/

Voltar para Notícias