Secretária Nacional concede entrevista exclusiva sobre as prioridades da sua pasta em 2026
Publicado em: 26/02/2026
De imediato, duas coisas impressionam ao entrevistar a Secretária Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência: sua pouca idade (29 anos) e seu extenso currículo. Segura, consciente de seu papel e dos desafios pela, ela tem uma base consistente na sua trajetória profissional e experiência pessoal como mulher preta com deficiência. Esta entrevista exclusiva foi concedida à diretora do Instituto Modo Parités, Ivone Santana, e ao jornalista da Câmara Paulista para Inclusão, Sergio Gomes, em 20 de fevereiro.

Isadora Nascimento Santos, é a atual Secretária Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, nomeada em janeiro de 2026 para assumir o cargo deixado pela ex-secretária Anna Paula Feminella, no final de 2025. Mesmo sendo uma jovem profissional, a advolgada de 29 anos de idade tem um currículo impressionante, demonstrando ser muito bem qualificada para o cargo. Ela se descreve como mulher negra com deficiência, advogada, com estudos em Cidadania e Direitos Humanos no contexto das políticas públicas, pós-graduada em advocacia feminista e direitos da mulher. Isadora tem muitas qualificações, diplomas e trabalhos executados, relatados por ela durante entrevista exclusiva à Câmara Paulista para Inclusão da Pessoa com Deficiencia. Os assuntos abordados foram amplos, desde a defesa da Lei de Cotas, a implementação do IFBr-M, o Programa Viver sem Limite e outros assuntos ligados ao universo do trabalho.
CÂMARA PAULISTA PARA INCLUSÃO DA PESSOA COM DEFICIENCIA
Gostaríamos de ouvir um pouquinho da sua história, da sua trajetória. Quem é a Isadora Nascimento?
ISADORA NASCIMENTO
Eu sou uma mulher com deficiência, uma mulher negra com deficiência. Eu sei da importância que é me apresentar dessa forma, porque não são muitas mulheres negras com deficiência que ocupam esses espaços de representação, de tomada de decisão, então eu sempre faço questão de me apresentar enquanto mulher negra, enquanto mulher com deficiência.
Entendendo que esses marcadores ainda são muito vulnerabilizados na sociedade. Eu sou uma pessoa com deficiência visual, eu tenho baixa visão, eu enxergo bem pouquinho, eu nasci com deficiência, eu sou naturalmente de Minas Gerais, de Belo Horizonte, tenho 29 anos, sou formada em Direito, com estudos em Cidadania e Direitos Humanos no contexto das Políticas Públicas, pós-graduada em Advocacia Feminista e Direitos da Mulher. Tenho cursos também voltados para lideranças de pessoas pretas e periféricas. E sempre tive uma paixão muito grande pela pauta dos Direitos Humanos, entendendo os meus recortes. Então, eu tenho um trabalho também como palestrante, antes de vir para o Ministério, eu já dava palestras, tinha uma página nas redes sociais, ainda tenho, que é o Olhar Cotidiano, para falar sobre diversidade, interseccionalidade, partindo dessa encruzilhada de gênero, raça e deficiência, e essas pautas sempre me foram muito caras.
Já participei de diversos coletivos de pessoas com deficiência, em Belo Horizonte, o Movimento Unificado de Pessoas com Deficiência Visual, o MUDEVI, já participei do coletivo Feminista Helen Keller, de mulheres com deficiência, ajudei a construir o que a gente tem hoje, que é o Coletivo Vidas Negras Com Deficiência Importam, fiz parte da Frente Nacional, fiz parte do movimento de mulheres cegas e com baixa visão.
Então, essa minha relação com os movimentos sociais é muito forte e é também o que me forma enquanto profissional hoje. A gente se fortalece nas trocas, a gente se fortalece nas vivências. Os estudos da deficiência também, para mim, sempre foram muito importantes, um assunto que eu sempre gostei de me debruçar, tanto para levar isso para o meu perfil nas redes sociais, quanto para palestras e cursos. Tenho um trabalho com acessibilidade também, eu sou consultora de áudio-descrição, então sempre estive muito próximo dessas pautas, desde 2014, que foi quando eu comecei. E hoje eu estou como Secretária Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Estou aqui no Ministério desde o final de 2024, onde comecei como Coordenadora Geral de Articulação Institucional e Participação Social, e esse ano, nessa reta final de gestão, me veio o convite da Ministra Macaé Evaristo, (Ministra dos Direitos Humanos e Cidadania] para assumir a secretaria. É uma responsabilidade grande, e quero fazer o melhor trabalho possível.
CÂMARA PAULISTA PARA INCLUSÃO DA PESSOA COM DEFICIENCIA
Secretária, você aceitou o convite para assumir a secretaria num período desafiador, porque é um ano eleitoral. Quais são as ações concretas que pretende priorizar nesse ano?
ISADORA NASCIMENTO
Então, assumir a Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência nesse ano, que é um ano eleitoral, é um desafio relevante, importantíssimo. Mas a gente entende que momentos como esse exigem muita responsabilidade institucional, compromisso com a continuidade das políticas públicas e foco no que gera impacto positivo na vida das pessoas com deficiência. Eu gosto sempre de lembrar que essa gestão não é individual, é conduzida também por uma equipe técnica extremamente qualificada, uma equipe comprometida e que também conhece com profundidade a pauta das pessoas com deficiência.
A gente trabalha de forma articulada, planejada e estratégica, e nada aqui é feito de forma isolada. A nossa prioridade hoje – as nossas prioridades, pois são algumas -, partindo da primeira, é fortalecer o Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, o Novo Viver Sem Limite, especialmente no que diz respeito ao monitoramento, à transparência e à efetividade das ações. Nós vamos realizar a reunião do comitê interministerial para poder alinhar as prioridades e dar maior fluidez às entregas que já estão previstas e as que já estão sendo desenvolvidas. Nós também vamos intensificar as adesões de Estados e Municípios ao Plano Viver Sem Limite, porque ele, o Plano Nacional, é um instrumento importantíssimo para estruturar aas políticas públicas para as pessoas com deficiência nos territórios. Em muitos municípios, especialmente aqueles pequenininhos, não há uma estrutura sólida de governança para a pessoa com deficiência. Muitos não têm conselho ativo ou um órgão gestor que seja responsável para cuidar das políticas para a pessoa com deficiência de forma local. Então, o Viver Sem Limite, ele vai ajudar a organizar essa base institucional e também vai fazer com que os direitos cheguem lá na ponta. Direitos de acessos para as pessoas com deficiência.
Um outro ponto de atenção dessa gestão é a gente dar sempre constante visibilidade à pauta da Hanseníase, que está sob responsabilidade dessa secretaria em articulação com outros ministérios, porque se trata de uma agenda que vai envolver uma política de reparação, preservação da memória e enfrentamento ao estigma que as pessoas com Hanseníase sofrem, junto com seus familiares.
Além disso, a gente vai buscar retomar temas estruturantes para a nossa secretaria, a exemplo da avaliação biopsicossocial, o fortalecimento também do registro de referência, entendendo que dados e instrumentos adequados são fundamentais para a gente ter políticas públicas mais justas e eficazes.
Uma outra coisa que vale a pena destacar aqui é que é importantíssimo para nós, enquanto secretaria, é manter fortalecido o diálogo com os movimentos sociais, porque eles são um termômetro de tudo que a gente vem construindo. Vamos retomar mais fortemente os trabalhos do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, o CONADE, que é um espaço fundamental de participação e controle social. E aí o nosso compromisso vai ser sempre garantir a continuidade do que vem sendo desenvolvido nos últimos três anos. Vamos buscar também aprimorar o que precisa ser impulsionado e buscar entregar políticas públicas com impacto real, que é o nosso principal objetivo, nosso principal sonho.
CÂMARA PAULISTA PARA INCLUSÃO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA
Secretária, uma das iniciativas que estava em andamento na secretaria era a implementação do Índice de Funcionalidade Brasileiro Modificado, o IFBrM. Como você vai conduzir essa medida? Em que momento está e qual é a proposta de condução?
ISADORA NASCIMENTO
Após os projetos pilotos que foram realizados nos estados do Piauí e da Bahia, assim como a parceria com a empresa de serviços hospitalares, a gente avançou muito na implementação da avaliação, com a utilização do instrumento que é o IFBrM. E aí, nessa coleta de dados avançamos juntamente com pesquisas aplicadas por instituições parceiras, como a Fiocruz, no Piauí, o Banco Mundial na Bahia.
Atualmente, nós estamos com acordo de cooperação técnica em andamento com o CNJ [Conselho Nacional de Justiça], para a formação de avaliadores, assim também para a aplicação da avaliação aos servidores, estagiários, magistrados o Poder Judiciário, e também a gente está concretizando um acordo de cooperação técnica com o MGI [Ministério da Gestão e Inovação em Serviços Públicos] para a formação de avaliadores e aplicação da avaliação biopsicossocial para os servidores estagiários no âmbito da gerência do MGI, do Poder Executivo Federal.
Da mesma maneira, nós estamos seguindo com tratativas com o MEC Ministério da Educação, para efetivação da avaliação biopsicossocial da pessoa com deficiência por meio da formação de avaliadores voltados à política de ingresso e permanência nas universidades e institutos federais de Educação e, dessa forma, avançamos na implementação desse modelo unificado de avaliação da pessoa com deficiência. Ao mesmo tempo em que ampliamos o escopo de atuação da política por meio do uso do IFBrM de forma progressiva, para alcançar maior abrangência, também partimos de diretrizes mais bem definidas, pensando num projeto de governança que tem amplitude nacional. Resumindo, são essas diretrizes.
CÂMARA PAULISTA PARA INCLUSÃO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA
Secretária, a Câmara Paulista para a Inclusão é um movimento criado há mais de 15 anos, promove e defende a Lei de Cotas como instrumento necessário para a inclusão das pessoas com deficiência. Qual é a sua percepção sobre a Lei de Cotas?
ISADORA NASCIMENTO
É muito importante a gente lembrar porque a Lei de Cotas é uma política estruturante e segue sendo absolutamente necessária para garantir a inclusão no mercado formal de trabalho. A Lei de Cotas não é um privilégio, mas é um instrumento de correção, um dos que a gente precisa ainda de vários, pensando em oportunidades para as pessoas com deficiência. É um instrumento de correção das desigualdades históricas que as pessoas com deficiência sofrem.
Então, é importante reconhecer que grande parte das oportunidades formais de trabalho para as pessoas com deficiência ainda está vinculada ao cumprimento da legislação. Isso demonstra que o cumprimento da lei continua sendo extremamente necessário para poder assegurar a presença e participação das pessoas com deficiência, e ao mesmo tempo a gente sabe que inclusão não pode ser apenas cumprimento formal de percentual. Não basta contratar, a gente precisa garantir acessibilidade, condições reais de permanência no ambiente de trabalho, e também oportunidades de desenvolvimento, de progressão de carreira, enfim… Defendemos aqui o fortalecimento da fiscalização, maior transparência e articulação com políticas de qualificação profissional e, obviamente, acessibilidade, que é fundamental, é a base de qualquer projeto que a gente, pessoas com deficiência, tenha na vida.
Uma outra coisa que vale destacar é que a inclusão produtiva precisa ser compreendida como parte do desenvolvimento do país, não como uma obrigação isolada. Então, são pontos para a gente refletir.
CÂMARA PAULISTA PARA INCLUSÃO DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA
Secretária, como você analisa o atual contexto da inclusão das pessoas com deficiência? E o cenário que vem crescendo, como a contratação de PJs nas empresas em vez de CLT, por exemplo. Qual é a sua análise do momento atual?
ISADORA NASCIMENTO
A gente precisa garantir a participação plena de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, e sabemos que muitas têm essa dificuldade, inclusive, de ter ali o trabalho formal reconhecido. Então, é uma grande questão de reflexão.
Vou responder à pergunta – e aí eu sempre falo ‘nós’, porque eu falo enquanto secretária, enquanto parte de um corpo técnico, enfim, parte de um Ministério dos Direitos Humanos. Então, é sempre ‘nós’. A gente avalia esse contexto atual com um senso grande de responsabilidade. O Brasil avançou, sim, no campo normativo, na construção de políticas públicas, mas a gente ainda enfrenta barreiras estruturais que são importantes e precisam ter um foco, precisam ter visibilidade.
O direito ao trabalho está diretamente ligado à cidadania, à autonomia e à dignidade.
Ele é também uma das principais portas de entrada para a vida social e econômica, e quando esse direito é negado ou limitado, as desigualdades vão se aprofundar. A gente tem ainda muitos desafios relacionados à acessibilidade, à adaptação razoável, ao combate ao capacitismo que é estrutural e também à mudança cultural dentro das organizações.
A inclusão precisa deixar de ser vista como uma exceção ou obrigação legal e passar a ser compreendida como parte natural de uma sociedade que é democrática.
E aí, nessa toada, o Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, o Novo Viver Sem Limite, que eu havia comentado mais cedo, vai organizar ações interministeriais, que vão dialogar com essa agenda, pensando em um fortalecimento dessa articulação entre diferentes áreas de governo. Mas a gente sabe também que diferentes áreas precisam estar comprometidas.
O trabalho exige um compromisso do poder público, das empresas e também da sociedade. Então, o nosso papel aqui é continuar fortalecendo políticas públicas que ampliem oportunidades, minimizem e combatam barreiras que são estruturais e garantam também que as pessoas com deficiência tenham condições reais de ingressar, permanecer e se desenvolver profissionalmente com autonomia e dignidade.