Casal cria iniciativa de acessibilidade em audiodescrição para pessoas com deficiência visual

Lucas é um homem jovem, de pele branca, cabelos encaracolados marrom escuro, usa barba pequena e está sorrindo. Vanessa é uma jovem de pele negras, usa turbante colorido cobrindo seus cabelos, usa óculos com armação marrom, e está sorrindo. Os dois estão lado a lado, abraçados.

Publicado em: 31/05/2022


Figura 1Vanessa Delfino e Lucas Borba

Por Sergio Gomes

Lucas Borba e Vanessa Delfino são um jovem casal de jornalistas de São Paulo, que um tempo depois de se conhecerem resolveram criar um projeto muito interessante chamado Domínio Acessível. Lucas, 30, tem deficiência visual total e explica que depois de concluir a faculdade de Jornalismo na sua cidade natal, Caxias Do Sul, migrou para a capital paulista. Ele e Vanessa, são noivos e de uma conversa entre os dois sobre as dificuldades para um deficiente visual apreciar um filme mudo, por exemplo, surgiu a ideia de criar o projeto Domínio Acessível. Já Vanessa é paulistana e formada em letras, e tem 32 anos. Vanessa começa contando um pouco de sua experiência profissional “Eu me formei em letras e passei muito tempo da minha vida trabalhando com tradução e revisão. Digo que o fato de ter trabalhado com tradução me ajudou muito a ter uma certa facilidade com a audiodescrição. Porque eu vejo a audiodescrição também como uma tradução, só que de imagens para palavras. Ela atualmente trabalha também como jornalista de finanças.

Início da jornada na acessibilidade

Lucas explica que sempre teve uma parcela pequena da visão, devido a um glaucoma congênito e por isso já foi alfabetizado em Braille, aprendeu a usar bengala muito cedo e teve acesso a todos os recursos de acessibilidade disponíveis para pessoas com deficiência visual total. “Eu enxergava apenas vultos e sombras até os 12 anos de idade e depois desenvolvi uma deficiência severa” ele conta. Vanessa diz que sempre gostou muito de cinema e por isso relata “conheci a audiodescrição ao ir a uma mostra de cinema em São Paulo. Eu sempre gostei muito de cinema, foi uma influência do meu pai e eu estava sempre indo em mostras de cinema e festivais e certa vez tinha um filme para assistir no Cine Sesc e lá, pela primeira vez, teve uma sessão com audiodescrição e closed caption e foi a primeira vez que tive contato [com a audiodescrição] e era uma sessão totalmente inclusiva”

Panorama da situação dos deficientes visuais no Brasil

O número de deficientes visuais no Brasil é 6,5 milhões, sendo que 506 mil tem deficiência visual severa, ou seja, têm perda total da visão (0,3% da população) e 6 milhões têm grande dificuldade para enxergar (3,2%) e para essas pessoas consumir conteúdo audiovisual pode ser muito difícil ou na maior parte das vezes, impossível devido à falta de recursos de acessibilidade como a audiodescrição.

Lucas fala um pouco sobre a situação dos deficientes visuais e a produção audiovisual no Brasil.

“Existe um descaso muito grande das instituições em relação a isso, apesar do recurso [a audiodescrição] estar previsto em lei.  Nós temos a LBI, Lei Brasileira de Inclusão, que prevê isso, que prevê o recurso da audiodescrição em todas as salas de cinema, por exemplo. A implantação do recurso fica sendo adiada ano após ano e nós, deficientes visuais, é quem sentimos na pele.” Vanessa complementa. “Além disso quando os filmes chegam no streaming eles nem tem audiodescrição [em português], já em inglês tem no caso da Netflix, Diney Plus, HBO Max são três serviços de streaming que a gente sabe que tem o serviço de audiodescrição em inglês, mas em português não. Se não me engano, em português só a Apple TV tem.

Como surgiu o Domínio Acessível e o que é

O projeto Domínio Acessível criado pelos dois jornalistas conta também com um canal no You Tube e uma página no Facebook, além de um perfil no Instagram.

“O projeto Domínio Acessível surgiu com o intuito de reunir um grupo de profissionais autônomos especializados em audiodescrição, para que pudéssemos unir forças no sentido de criar iniciativas em prol da implementação da audiodescrição”. Explica Lucas. Ele fala um pouco da página e do canal do You Tube. “Em relação ao canal Domínio Acessível nós estamos começando e não tem tanto conteúdo ainda no canal, já na página do Facebook temos algumas coisas, na verdade bastante coisa, lá tem um histórico considerável de publicações com descrição de imagens de cartazes de filmes e de séries, a gente iniciou a página em outubro de 2021”.

AD sem limites [Audiodescrição Sem Limites]

“O AD Sem Limites é a primeira grande iniciativa criada pelo Domínio Acessível e foi inaugurado no último dia 20 de fevereiro. “Nós já iniciamos o serviço e como se dá essa proposta? Existe uma lei que é a lei 9.610 do ano de 1998 para você ter uma ideia de há quanto tempo existe essa lei no papel o que ela prevê? Ela diz que quando uma obra artística ou cientifica ou literária é disponibilizada de forma exclusiva para pessoas com deficiência visual, através de algum recurso de acessibilidade que torne essa obra adaptada, essa disponibilização não constituí ofensas aos direitos autorais desde que ela seja disponibilizada exclusivamente para pessoas com deficiência visual, então é com base nessa lei que a gente resolveu eliminar o intermediário que não está fazendo a parte dele e que deveria, que são os grandes estúdios as grandes emissoras”. Lucas fala mais um pouco sobre a precariedade das obras audiovisuais no que diz respeito a audiodescrição “a verdade é que a maioria dos conteúdos continua chegando sem audiodescrição , então nós pensamos em estabelecer uma parceria direta com quem precisa do recurso, que são as próprias pessoas com deficiência visual, e não só criar uma espécie de serviço de streaming, mas disponibilizando todo conteúdo com audiodescrição de forma acessível, mas atendendo aos pedidos das pessoas que participam. ‘Ah tem aquela novela, aquela série, aquele filme, desenho, animação que eu sempre quis assistir com audiodescrição, mas não encontro’ nós sabemos que vamos começar a lutar e vão começar a chegar as coisas novas com audiodrescrição, novos títulos, mas esses que já estão [no mercado] já foram lançados há pouco tempo, enfim, quem dirá conteúdos mais antigos a gente sabe que, dificilmente serão audiodescritos algum dia”

Lucas complementa “Então, só que isso não pode acontecer [esperar só pelos produtores audiovisuais] a gente tem que voltar a atenção não só para coisas novas que estão chegando e que precisam vir com acessibilidade, mas também para coisas que já estão ai, que já foram lançadas recentemente e coisas antigas também que precisam ser audiodescritas.”

         O serviço funciona da seguinte maneira: As pessoas interessadas entram em contato via WhatsApp [Lucas 11 999691342] e o da Vanessa [11 972746498] “a gente criou um grupo no Telegram e no WhatsApp para atualizar as pessoas quanto ao catálogo para que elas estejam sempre atualizadas sempre que um novo pedido estiver disponível e o catálogo é colocado em uma pasta privada no Google Drive, para que as pessoas possam acessa-lo. Uma observação muito importante essa inscrição pode ser feita por qualquer pessoa  com deficiência visual, pode ser feita de forma gratuita, pois juridicamente    não é possível cobrar pelo serviço,  o que nós pedimos é que  quem possa contribuir com o projeto nos ajude para que ele possa ser mantido.  Para que possamos atender diretamente quem precisa do serviço.

         A iniciativa de Lucas e Vanessa pode mudar a vida de muitas pessoas que tem deficiência visual e o processo de audiodescrição é complexo e demorado e por isso são necessários 5 profissionais para executar todas as etapas, mas atualmente eles trabalham sós e produzem um conteúdo de qualidade. Por isso é importante a ajuda de quem puder contribuir com o serviço.

Figura 2 Logo do Projeto Domínio Acessivel

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