Habilidades em primeiro lugar: Pelo fim do capacitismo no ambiente de Trabalho
Publicado em: 30/07/2026
Por Sergio Gomes para o site da Câmara Paulista para a Inclusão da Pessoa com Deficiência
No dia 24 de julho de 2026, a Lei de Cotas para pessoas com deficiência no mercado de trabalho completou 35 anos. A Lei nº 8.213/91 tem sido nesse período o principal instrumento para a inclusão de pessoas com deficiência no universo do trabalho formal e continua sendo fundamental. No entanto, ainda temos muito a fazer para alcançar uma inclusão plena, que dê àqueles que foram inseridos no mundo corporativo por esse mecanismo a possibilidade de evoluir profissionalmente, alcançando os mesmos benefícios e status profissional que seus colegas sem deficiência.
Cenário atual
Atualmente, no Brasil, há 14,4 milhões de pessoas com deficiência, ou 8,9% da população. Quando olhamos para o mercado de trabalho, o percentual de pessoas com deficiência em idade ativa e empregadas, temos 26,6% em comparação com 60,7% das pessoas sem deficiência. A remuneração da parcela de pessoas com deficiência também é menor, sendo 3% menor que o das pessoas sem deficiência, embora haja, segundo pesquisa da FIPE, tendência de redução nessa disparidade. A maior parte das empresas contrata pessoas com deficiência apenas para cumprir a obrigação legal, mas há muitos benefícios na inserção de pessoas com deficiência no ambiente laboral das empresas. A especialista Vilma Roberto, coordenadora do Programa Meu Emprego Inclusivo da SEDPcD do estado de São Paulo e Mestre em Políticas Públicas comenta “Eu acho que é uma empresa que aceita a diversidade humana com mais facilidade, mais tolerância. Quando uma pessoa com deficiência entra numa empresa, ela modifica o ambiente. As atitudes dos colaboradores sem deficiência mudam. Por quê? Esses colaboradores vão ver que se acontecer um problema de saúde, se eles ficarem, adquirirem alguma deficiência, acontecer algum problema, essa empresa é mais humana. Então ela modifica, ela motiva. A presença das pessoas com deficiência no mundo do trabalho é fundamental para que a gente tenha uma sociedade mais tolerante com a diversidade humana, porque a deficiência é apenas uma das expressões da diversidade humana.”
Outros aspectos importantes da inserção de pessoa com deficiência é o impacto não só na vida financeira, com a pessoa conseguindo renda, tendo um senso de propósito e pertencimento e tudo isso impacta na saúde como um todo. Em artigo publicado no site Veja Saúde, o coordenador da Câmara Paulista para a Inclusão da Pessoa com Deficiência no Mercado de Trabalho Formal, José Carlos do Carmo explica : “O trabalho representa muito mais que renda. Significa autonomia, proteção social, autoestima e melhores condições para cuidar da própria saúde física e mental. E vale reforçar que a deficiência não é obstáculo.”
Mito da falta de capacitação
Um argumento comum das empresas para não contratarem PcDs é que esse grupo não tem qualificação suficiente para o preenchimento das vagas. No entanto, um olhar mais atento aos dados da educação desse segmento da sociedade mostra que é uma tese que não encontra fundamentos na realidade. É preciso deixar claro, porém, que essa parcela da população ainda encontra desvantagens no acesso à educação regular ou profissionalizante. No Brasil, em números mais recentes, de julho de 2026, temos 445 mil vagas destinadas a pessoas com deficiência sem preencher. Os números são do Ministério do Trabalho e Emprego, elaborados com base nas informações prestadas pelas próprias empresas ao eSocial e utilizados em diversos sistemas pela Auditoria-Fiscal do Trabalho. Do total de oportunidades destinadas à cota, apenas 58% encontram-se ocupadas.
No Brasil, temos 3,8 milhões de pessoas com deficiência com ensino médio. Ainda, segundo dados do IBGE, há 1,3 milhão de pessoas com deficiência com ensino superior completo. Desta parcela, os dados mostram que apenas 54,7% integram a força de trabalho do país.
Pessoas com deficiência, muitas vezes, enxergam na educação uma solução para os problemas da exclusão e da falta de acesso ao mundo do trabalho e da realização profissional. No entanto, esse grupo, com muita frequência, precisa ter um esforço redobrado para conseguir acessar e concluir o ensino superior, na maioria dos casos isso não se concretiza em melhores posições no mundo do trabalho, uma vez que, de acordo com o IBGE, raramente elas conseguem uma colocação na área em que se qualificaram. “No nosso programa a gente percebe que realmente isso ficou no passado, é o fato das pessoas [com deficiência] não terem escolaridade, hoje, dentro do programa Meu Emprego Inclusivo, o perfil das pessoas com deficiência, 30% das pessoas têm nível médio completo. É um nível muito bom. E 36% têm nível superior completo. Então, olha, a gente consegue derrubar esse mito também com os resultados que nós temos de perfil”, enfatiza Vilma.
Parados na entrada
Ao voltarmos o olhar para o mundo corporativo, vemos uma situação que também merece atenção. A maior parte das pessoas com deficiência ocupadas, 72%, segundo pesquisa da empresa de consultoria Diversitera, ocupa cargos de entrada nas empresas, (auxiliares, aprendizes ou assistentes). Em comparação, o percentual de pessoas sem deficiência nesta mesma situação é de 55%.
Um relatório produzido pela consultoria Talento Incluir e o Pacto Global da ONU no Brasil, em parceria com o Instituto Locomotiva, mostra que 67% das pessoas com deficiência nunca receberam uma promoção no trabalho atual e, neste mesmo relatório, 41% dos entrevistados estão na mesma empresa há três anos ou mais.
Apenas 2% das pessoas com deficiência ocupam cargos de liderança. Já o percentual de pessoas sem deficiência ocupando esses cargos é 97,7%. Importante frisar que esses números são em cargos de média liderança, como gerentes, coordenadores ou supervisores. Subindo na hierarquia, esses números ficam mais desanimadores, com apenas 1,2% dos cargos de alta liderança (diretoria e presidência) ocupados por pessoas com deficiência. No recorte de gênero, há um abismo ainda maior, visto que apenas 0,2% dos cargos executivos são ocupados por mulheres com deficiência.
“A questão da pessoa sem deficiência, quando não tem experiência, ela também entra nos cargos de entrada… outra coisa, tem muito mito, porque a empresa entende muitas vezes que a pessoa [com deficiência], ela entra nesse cargo e é para ela ficar nesse cargo. Quantas vezes a gente já evitou demissões. Porque a pessoa com deficiência, monitorada por nós, chega e fala, eu vou pedir demissão porque eu não cresço aqui, todo mundo que entrou comigo cresceu e eu não cresci.”, relata Vilma Roberto.
Essa prática é conhecida como “teto de vidro”, uma barreira invisível, mas extremamente resistente e que impede as pessoas com deficiência de progredirem na carreira e há três motivos principais: o capacitismo das lideranças, que não confiam nas capacidades de PcDs de gestão das pessoas, subestimando a capacidade desses colaboradores. É comum esses colaboradores enfrentarem barreiras físicas ou digitais na hora de participar de reuniões estratégicas de desenvolvimento ou treinamentos internos, como a ausência de leitores de telas ou intérpretes de libras.
Gargalos na qualificação
Embora os números e dados possam desanimar, a melhor qualificação profissional ainda é uma das melhores soluções para a falta de progressão na carreira de pessoas com deficiência e é aqui que encontramos uma velha conhecida de PcDs, a falta de acessibilidade em cursos de capacitação e formação. Isso faz muita diferença “Eu acho ainda que os cursos profissionalizantes, sejam eles públicos ou privados, precisam adquirir acessibilidade. E para todos os tipos de deficiência. Acessibilidade não é só trocar os degraus por rampas. Então, a acessibilidade de conteúdo. Os professores saberem que, por exemplo, eles têm uma apresentação, eu preparo a apresentação, se tem uma pessoa cega, ele tem que fazer a descrição dessa foto, desse gráfico, daquilo que ele tá explicando. Não é falar, ‘ó, veja aqui’. Não é assim. Então, os professores que fazem a qualificação profissional, precisam passar também por palestras, por entendimento, saber como passar melhor a disciplina, o conteúdo daquilo que ele está ensinando. Isso é muitas vezes, atitudinal.” explica Vilma Roberto.
Mentalidade capacitista
Outro problema que colabora para a estagnação de pessoas com deficiência é a chamada “contratação tabela”, aquela feita apenas para cumprir a exigência legal, sem ter um plano de carreira ou uma visão estratégica para o colaborador com deficiência contratado. A mentalidade das lideranças da maior parte das empresas, é capacitista e isso requer treinamento, orientação e conscientização para ser alterado de forma positiva. A chamada acessibilidade atitudinal “É fundamental [a acessibilidade atitudinal]. Eu acho que a questão da inclusão de pessoas com deficiência, eu falo muito isso para as empresas, ela tem que estar no planejamento estratégico da empresa, a inclusão. Assim como você faz um planejamento financeiro, você tem que fazer um planejamento de inclusão. Eu quero tantas pessoas, eu posso tantas pessoas, eu quero ter todos os tipos de deficiência aqui. Então, a inclusão tem que fazer parte do planejamento estratégico das empresas. Como é que a empresa quer chegar daqui a cinco anos? Então, eu coloco bastante esse desafio para as empresas. E eu acho que é fundamental isso.” Conclui Vilma.
Caminhos para o futuro
A Lei de Cotas completou 35 anos mostrando-se um instrumento fundamental para abrir as portas do mercado de trabalho para as pessoas com deficiência. Para o futuro, no entanto, é urgente uma mudança significativa na mentalidade das lideranças corporativas. Isso só será alcançado por meio do interesse genuíno das empresas não apenas em incluir, mas em garantir que profissionais com deficiência evoluam e progridam em suas carreiras como os demais colaboradores. Esse caminho exige também a conscientização de instituições que ofertam cursos de capacitação e formação. É preciso expandir a visão sobre a sociedade e encarar o fato de que as pessoas são diversas: profissionais com deficiência estudam ou querem estudar e, ao fazê-lo, necessitam de acessibilidade que vá além da arquitetônica ou digital, alcançando o nível atitudinal. Esse é um degrau indispensável para a evolução profissional do segmento.
A luta das pessoas com deficiência continuará, e os cenários apresentados nesta reportagem exigem atenção, compromisso e ação imediata.

