Mais inclusão no trabalho, mais saúde para mulheres com deficiência, por José Carlos do Carmo, Kal
O trabalho é um dos principais determinantes sociais da saúde. Além de garantir renda, fortalece a autoestima, amplia o acesso aos serviços de saúde e favorece a autonomia e a participação na vida em sociedade.
Poucos grupos revelam essa relação de forma tão evidente quanto as mulheres com deficiência. O Brasil tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência. Destas, 8,3 milhões são mulheres e 6,1 milhões são homens, segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE.
Enquanto 8,1% das mulheres brasileiras vivem com algum tipo de deficiência, entre os homens esse percentual é de 6,4%. Entre as pessoas com 70 anos ou mais, a prevalência chega a 29,5% nas mulheres e a 24,9% nos homens.
Embora as mulheres representem cerca de 44% dos empregos formais, elas correspondem a apenas 38% das pessoas com deficiência empregadas formalmente.
Segundo o IBGE, em 2024, mulheres sem deficiência recebiam, em média, 78,9% do rendimento dos homens. Entre mulheres com deficiência, esse percentual caía para 72%.
A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) mostra que mulheres com deficiência apresentam menor cobertura por planos de saúde, especialmente entre pretas e pardas, evidenciando como diferentes desigualdades se acumulam.
O emprego formal fortalece a proteção social e amplia as possibilidades de acesso à prevenção, ao diagnóstico precoce, ao tratamento e à reabilitação.
A PNS também mostra que mulheres com deficiência convivem mais frequentemente com doenças crônicas e utilizam mais os serviços de saúde, refletindo necessidades assistenciais permanentes.
Muitas vezes, também demandam tecnologias assistivas, como cadeiras de rodas, próteses, órteses, aparelhos auditivos e outros recursos que favorecem a mobilidade, a comunicação e a autonomia.
O trabalho representa muito mais que renda. Significa autonomia, proteção social, autoestima e melhores condições para cuidar da própria saúde física e mental. E vale reforçar que a deficiência não é obstáculo.
Por isso, empresas comprometidas com a inclusão precisam olhar para toda a trajetória dessas profissionais. Assim, devem promover processos seletivos acessíveis, participação em programas de estágio, trainee e desenvolvimento de lideranças, além de acesso a capacitações e mentorias, com critérios transparentes para promoções e oportunidades reais de ocupar projetos estratégicos e posições de decisão.
Esse compromisso beneficia também as próprias organizações. Ambientes inclusivos são mais colaborativos, inovadores e saudáveis. Ao remover barreiras para pessoas com deficiência, as empresas constroem relações de trabalho melhores para todos.
Ao longo da minha trajetória como auditor fiscal do Trabalho e coordenador da Câmara Paulista para Inclusão da Pessoa com Deficiência no Mercado de Trabalho Formal, testemunhei inúmeras histórias que desmentem qualquer associação entre deficiência e incapacidade.
Conheci mulheres que lideram equipes, coordenam projetos, inovam e transformam organizações. O que permitiu esse protagonismo não foi a ausência da deficiência, mas a presença de oportunidades.
*José Carlos do Carmo é médico, mestre em Saúde Pública, auditor fiscal do Trabalho aposentado e coordenador da Câmara Paulista para Inclusão da Pessoa com Deficiência no Mercado de Trabalho Formal.