Adolescente com TEA torna-se a mais jovem caloura da Medicina UFPA

Fotografia mostra Natãmy, com colegas ao fundo. Com sorriso nos lábios ela usa na testa a faixa de caloura de medicina. O resto está parcialmente pintado com tinta colorida na testa, nariz, bochechas e queixo, com fragmentos de lama, devido ao trote de recepção na universidade

Com apenas 15 anos, a paraense Natãmy Nakano se matriculou no curso de medicina (turma 2019) da concorrida Universidade Federal do Paraná. Antes disso, há dois anos, ela tinha sido aprovada no vestibular de engenharia de bioprocesso na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). A estudante destaca-se ainda por ser autista e com altas habilidades.

Apesar de a confirmação diagnóstica de Síndrome de Asperger ter sido tardia, apenas no início da adolescência,já nos primeiros anos de vida da menina a precocidade foi identificada e estimulada pela mãe, Andréia, que tem as mesmas características da filha.

Rotineiramente a melhor aluna das escolas que frequentou, Natãmy integrou o programa Os Incríveis (game show do canal de tv Nat Geo), selecionada como um das 20 mentes brasileiras mais brilhantes. Sem ter estudado especialmente para o vestibular, a rotina em sala de aula chegava a doze horas diárias, pois a jovem frequentava a universidade, fazendo uma matéria, Bioquímica, no curso de Química.

“A minha mãe fala que desde que eu tinha dois anos eu falo que quero ser médica. E desde que eu me entendo por gente é isso mesmo”, disse Natãmy, contando que apenas estudou para passar de ano, no Ensino Médio. Ela cursava o Técnico em Petróleo e Gás e destacou-se no exame do Enem acertando 10 dentre as 14 questões.

Lições repetidas 15 vezes

“Quando temos uma criança normal precisamos ensinar umas cinco vezes, com autista umas 15 vezes.Exige dedicação e entrega total”, diz a mãe Andréia Pichorin, que acompanha a filha na rotina diária, inclusive nos trajetos, compras e incentivando a superar os obstáculos.

Natãmy relembra que os sintomas da “superdotação e da hipersensibilidade causada pelo autismo” eram confundidos com “falta de educação”. Relata que fazer amizades sempre foi difícil, pois era comum os colegas a considerarem “a estranha”, “a esquisita” “a louca”.

“Eu percebia também que não me enquadrava como superdotada. Então, quando veio o diagnóstico (Síndrome de Asperger), foi como se essas perguntas tivessem sido respondidas”. E faz um apelo aos pais com filhos autistas. “Se você tem um filho autista, aceite isso. Com esforço ele pode conquistar até mais coisas do que uma pessoa normal.”

Tal mãe tal filha                  

Andréia e Natãmy têm Síndrome de Asperger (um tipo de autismo, em grau leve) e altas habilidades. Assim como a filha, Andréia também estuda e cursa o doutorado em Engenharia de Materiais e Nanotecnologia na UFPR.

A doutoranda assume a facilidade que tem de aprender e dificuldade de interação com os colegas. Depende ainda de remédios para controlar a dor crônica, que a levou a se abster da escrita durante oito anos, estudando apenas oralmente.

Ela sabe o que a filha terá de enfrentar ao longo da vida, lembrando a dificuldade que os professores e colegas têm ao assimilar as características de uma pessoa autista, o que potencializa o sentimento de exclusão e isolamento social. “Foram anos em função dela e ainda tenho chão pela frente, ela ainda precisa muito de mim”.

Texto:

Adriana do Amaral

Voltar para Notícias