Empresário relata como foi possível vencer preconceitos

Descrição de Imagem: Fotografia de Marcelo Prado, um homem branco com cabelos escuros e curtos. Veste uma camisa social lilás e usa óculos escuros.
Natural de Ituverava (SP), Marcelo Prado fez carreira em Uberlândia (MG), onde hoje é um empresário de sucesso (Foto: Reprodução / TV Integração)

Publicado em: 31/10/2016


Cego, agrônomo chegou a vice-presidente de empresa, foi demitido e deu a volta por cima. Hoje tem clientes até no exterior e prega a felicidade no trabalho contra a crise e o desânimo de executivos

Depoimento à Folha de S.Paulo


Meu jeito de olhar o mundo mudou bruscamente aos oito anos, quando, num piscar de olhos, uma doença de nome estranho-retinose pigmentar me tirou 50% da visão. De repente eu precisava me levantar para copiar o que estava na lousa, que já não era vista de meu lugar.

Naquela época e na adolescência, sentia-me feio, tímido e sem perspectiva.

Para me popularizar, decidi inspirar-me nos Beatles. Em seis meses aprendi a tocar guitarra. Mas, sem vaga para guitarrista nas poucas bandas da minha Ituverava dos anos 1970, tive de aprender teclado. Aí, sim, entrei na principal banda que animava os bailes na região.

A estratégia de ser músico me favoreceu com as garotas e ainda proporcionou a atitude e o desembaraço necessários para que, anos mais tarde, eu viesse a me tornar professor e palestrante.

Aos 17 anos, já com apenas 30% da visão, sonhava ser engenheiro-agrônomo. Eram mil candidatos para 40 vagas. Fui o nono colocado.

Nos anos do curso tive passagens dramáticas, como os zeros que tirei nas provas que dependiam de observar o solo e os vegetais. Para compensar, memorizava aulas inteiras para, nas provas teóricas, obter nota máxima e alcançar a média para a aprovação. Formei-me em 22º lugar.

VICE-PRESIDENTE

Em 1978, fui apresentado por um tio a Luís Alberto Garcia, presidente do conselho de administração do grupo Algar, de Uberlândia, onde me tornei gerente de produção na Algar Agro, indústria de óleos vegetais. Onze anos depois, era vice-presidente.

Aos 35 anos, fui a Cuba tentar um tratamento considerado promissor na época para reverter a doença. Só que a cirurgia deu errado e voltei com apenas 1% de visão.

No fim dos anos 1980, a Algar Agro chegou a ser a segunda maior produtora de soja do país, mas, na década seguinte, veio a crise do setor. Em 1999, fui demitido da única empresa que assinou minha carteira profissional.

Todos nós temos momentos em que nos sentimos fragilizados – por problemas pessoais, profissionais ou físicos. E, quando a gente se sente assim, o erro é entregar os pontos. Nessas horas é preciso enfrentar com persistência e ter motivação.

Logo após a demissão, decidi abrir a consultoria em agronegócios MPrado. Demorou quase um ano até conquistarmos o primeiro grande cliente – a Basf. Mas isso só foi possível depois de valorizarmos o fato de sermos do interior. E a gente se apresentou aos clientes assim: “Somos caipiras de nível! Falamos inglês e entendemos a cultura e os costumes do interior!”.

Depois de comprovar nossa capacidade, fechamos o segundo grande contrato, com a Syngenta. Hoje temos clientes em 25 Estados, no Mercosul, em Portugal e na Inglaterra. Também abri novos negócios – como um minishopping e um centro empresarial.

EMPRESÁRIOS INFELIZES

Frequentando círculos sociais e empresariais, percebo alto índice de infelicidade entre os executivos. Muitos tomam calmante e antidepressivos. Conheço donos de iate que não têm com quem passear. Donos de jato que não têm quem levar para jantar em outra cidade. São pessoas frustradas e, geralmente, sem amigos.

Aponto, nas empresas, a nova vertente do conceito de sustentabilidade – a realização global do colaborador e do líder. Está comprovado: se o empresário e seus funcionários não conseguem alcançar a felicidade – pessoal e financeira-, a produtividade não se sustenta.

Quando escrevi o livro “Meu Jeito de Ver”, cuja renda direciono ao Instituto Integrar (de inclusão de deficientes), pensei em inspirar os leitores com meu exemplo de vida. Existem muitos casos, como o do pianista João Carlos Martins, com quem compartilho a determinação de ser feliz acima da dificuldade física. Não sou vítima nem azarado. A cegueira me proporciona alta sensibilidade, audição apurada e memória cavalar.

O fato de eu não enxergar faz com que meus filhos, minha mulher e meus amigos sejam meus olhos nos locais que visitamos e narrem como estão a praia, os coqueiros.

Só vejo as imagens quando durmo e sonho – e tudo nitidamente. Sou casado, tenho cinco filhos e quatro prioridades na vida: família, saúde, amigos e empresa. Sei que tenho capacidade de alcançar resultados e, como todo mundo, tenho que batalhar para conseguir as coisas.

Só que vou além: preciso provar minha competência vencendo o preconceito de incapacidade que ainda existe contra nós, deficientes.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/61573-novos-horizontes.shtml

 

Stela Masson, 31/10/2016

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